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África

Harare vira uma página de 37 anos

media O ex vice-presidente Emmerson Mnangagwa à sua chegada a Harare neste 22 de Novembro. REUTERS/Mike Hutchings

Ao cabo de muita pressão sobretudo a nível interno, com a população a descer massivamente à rua para reclamar a sua saída do poder, o Presidente Robert Mugabe, 93 anos, anunciou ontem a sua demissão após 37 anos no poder, uma decisão que abre agora a porta a uma nova era para este país flagelado há vários anos por uma grave crise económica, uma nova era a ser delineada pelo ex vice-presidente Emmerson Mnangagwa que toma posse Sexta-feira como Presidente interino.

Ao cabo de cerca de uma semana de suspense, após o exército ter tomado o poder na noite de 14 a 15 de Novembro, numa operação que desmentiram tratar-se de um golpe de Estado, o alívio dentro e fora do país era visível. Ontem as ruas de Harare, a capital, encheram-se espontaneamente de populares que celebraram a decisão de Mugabe, "um momento histórico" do ponto de vista de António Simões, português radicado há mais de 20 anos naquele país, que refere ainda que passada a euforia, os zimbabueanos retomaram hoje os seus afazeres habituais na serenidade.

António Simões, português radicado no Zimbabué há mais de 20 anos 22/11/2017 ouvir

Face a este cenário, os Presidentes da África do Sul e de Angola que ontem tinham sido mandatados pela SADC para se deslocarem hoje a Harare com vista a tentar encontrar uma saída de crise juntamente com os zimbabueanos desistiram do intento. A União Africana que, num primeiro tempo, tinha dado conta da sua preocupação perante aquilo que considerava "ter a aparência de um golpe", reviu entretanto a sua posição. A organização pan-africana saudou a decisão de Robert Mugabe "se demitir depois de uma vida ao serviço da Nação zimbabueana" e qualificou-a ainda de "acto de autêntico Estadista que apenas pode reforçar a sua herança política". Na região, nomeadamente em Moçambique, os discursos oficiais foram igualmente de regozijo, conforme relata a partir de Maputo, Orfeu Lisboa.

Orfeu Lisboa, correspondente da RFI em Maputo 22/11/2017 ouvir

Ficam doravante para trás os 37 anos de permanência no poder de Robert Mugabe. Herói da luta libertação nacional da antiga Rodésia, Mugabe converteu-se gradualmente, com o passar dos vários mandatos que acumulou consecutivamente, num chefe com modos considerados despóticos tanto no domínio dos Direitos Humanos como também em relação às suas opções económicas, a sua reforma agrária encaminhada durante os primeiros anos da década de 2000 tendo merecido numerosas crítica dentro e fora do seu país. Eis o seu retrato esboçado por Vítor Matias.

Perfil de Robert Mugabe por Vítor Matias 22/11/2017 ouvir

Neste novo cenário que se desenha para o Zimbabué, o ex-vice presidente Emmerson Mnangagwa que deve ser investido na Sexta-feira como Presidente interino do país, regressou hoje do seu exílio de um pouco mais de duas semanas na África do Sul. Exonerado por Mugabe das suas funções a 6 de Novembro por, segundo analistas, colocar em perigo o projecto do então Presidente colocar a esposa, Grace Mugabe, no poder, Mnangagwa encontra-se agora perante a delicada tarefa de conduzir o seu país rumo a eleições para o ano que vem. À sua chegada hoje a Harare, o futuro Presidente interino saudou "o início de uma nova democracia". Todavia, certos activistas no país não esquecem que o ex vice-presidente, também conhecido por "Crocodilo", foi um dos fiéis artesãos da política repressiva posta em prática pelo regime de Mugabe e receiam que se substitua um ditador por outro ditador. Eis o retrato do novo homem forte de Harare esboçado por Tiago Almeida.

Perfil do ex vice-presidente Emmerson Mnangagwa por Tiago Almeida 22/11/2017 ouvir

O destino do Zimbabué fica agora por reconstruir, os zimbabueanos esperando medidas urgentes para restabelecer a economia do país. Segundo o Banco Mundial, a taxa de pobreza ronda os 72%, a produção de riqueza está praticamente paralisada, o país enfrentando ainda a falta de divisas, uma taxa de desemprego em torno dos 90% segundo a Federação dos Sindicatos do Zimbabué, a falta de alimentos, uma prevalência da sida das mais altas do continente e o espectro da hiperinflação sempre presente. Para sustentar um possível renascimento económico, analistas destacam as riquezas minerais do país como o ouro e a platina, o sector agrícola, em particular a cultura do milho e do algodão assim como o potencial turístico deste país.

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Lamentamos, mas o prazo para estabelecer a ligação em causa foi ultrapassado.