A presidente Dilma foi obrigada a acelerar reformas essenciais diante dos protestos que tomaram conta do país, anunciando a proposta de uma convocação de um plebiscito para a reforma política. Ele deverá ser encaminhada nesta segunda-feira ao Congresso. Uma iniciativa que estaria fadada ao fracasso, afirma Stéphane Monclaire, professor de Ciências Políticas da Sorbonne.
Os motivos são muitos, diz. Com a proximidade das eleições de 2014 e a força do movimento de contestação que ganhou as ruas, aumentam as rivalidades partidárias. Além disso, o Brasil, explica, vive um fenômeno de politização coletiva que gera uma crise dentro do próprio eleitorado, que não se identifica com nenhum de seus representantes. Para o cientista político, esses aspectos, somados a uma desaceleração econômica, dificultam a situação do governo.
Os prazos estipulados para reverter a situação nas urnas também são curtos: qualquer reforma eleitoral deve ser promulgada antes de setembro de 2013. Caso o Congresso não vote as mudanças a tempo e se a população não for favorável às mudanças, dificilmente Dilmas teria chances de ser reeleita. A possibilidade de Lula voltar à cena não poderia, desta forma, ser descartada, e setores do PT já estariam se preparando para esse cenário.
Romário critica organização da Copa do Mundo
Em um outra coluna publicada no Le Monde, Romário critica a organização do Mundial. O evento, com vocação para gerar empregos, reforçar a imagem do Brasil no mundo e promover o turismo, acabou se transformando em um problema. Segundo ele, no governo Lula, a proposta era organizar a Copa do Mundo com a participação massiva da iniciativa privada e a transparência das despesas públicas, mas o que ocorreu foi o contrário.
De acordo com o deputado e ex-jogador, o orçamento inicial previa 8,23 bilhões de euros, mas até agora o governo já gastou 9,7 bilhões nas obras para o Mundial, segundo o secretário de estado do Ministro dos Transportes, Luis Fernandes. Para Romário, o Brasil falhou na organização de um evento que pressupunha um legado de melhorias nos serviços públicos no Brasil, o que certamente não ocorrerá. O crédito disponível foi utilizado na construção e na reforma de estádios, em vez se serem aplicados em políticas para a saúde, a educação e a segurança.
PT pode satisfazer as aspirações do movimento de contestação
Em sua coluna, o assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia, defende a política governamental mas reconhece um mal-estar perceptível em todos os níveis da sociedade. Segundo ele, as condições de vida de milhões de brasileiros ainda são difíceis, apesar dos progressos econômicos e sociais. Sem contar as questões políticas : as transformações vividas pelo país nos últimos anos não foram acompanhadas de reformas institucionais adequadas.
Diante das manifestações, diz o assessor, Dilma tomou a iniciativa de tornar a reforma política um tema urgente. Segundo ele, existem duas consequências ao movimento de constestação: a primeira é uma regressão autoritária e o surgimento de um líder providencial, capaz de operar uma reforma institucional. A segunda seria de natureza democrática, impondo ao governo uma reforma profunda das instituições e dos partidos.
Fotomontagem do artigo do jornal francês Le Monde desta quinta-feira, 27 de junho
REUTERS/Paulo Whitaker/ Fotomontagem RFI