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Artigo

Teatro da Vertigem estreia em Avignon peça com visão apocalíptica da Europa

media A peça do Teatro da Vertigem de SP é encenada na antiga Casa da Moeda de Avignon Christophe Raynaud de Lage / Festival d'Avignon

O público de Avignon recebeu com perplexidade e fascínio a peça da companhia paulistana Teatro da Vertigem, que estreou na segunda-feira (7) no festival. “Dizer aquilo que não pensamos em línguas que não falamos” é o título da criação que aborda a crise econômica europeia e sua influência nas relações humanas.  

O texto do escritor Bernardo Carvalho, colocado em cena pelo diretor Antônio Araújo, mostra uma visão apocalíptica e sombria do velho continente às voltas com a imigração em massa, a ascensão da extrema-direita e a perda de valores. A peça surpreende pela ousadia do texto, mas principalmente pela originalidade da encenação feita na desativada Casa da Moeda de Avignon. O espetáculo é itinerante: começa do lado de fora do edifício e perambula pelos diversos andares, com os espectadores se deslocando e se surpreendendo com as diferentes sequências.

Atmosfera de apocalipse

O ponto de partida do texto de Carvalho é a viagem a Bruxelas da protagonista da trama, uma jovem economista brasileira que chega à capital belga com seu pai, que viveu exilado na Bélgica 30 anos antes. Esse homem se tornou afásico (ou seja, não tem mais a capacidade de falar) e se perde nessa cidade europeia totalmente diferente daquela que ele conheceu.
Essa peça surgiu no contexto do projeto belga Villes em Scène, iniciativa do Teatro Nacional da Bélgica e do Programa de Cultura da União Europeia, que convidou vários diretores a trabalharem o tema da cidade e das relações humanas nas áreas urbanas do continente.
Antônio Araújo foi o único dramaturgo não-europeu associado ao projeto e criou a peça na antiga Bolsa de Valores de Bruxelas. No elenco, cinco atores belgas, dois brasileiros e um francês. A criação, fruto de um trabalho bem coletivo, foi apresentada com sucesso em Bruxelas em maio passado.

Vertigem em Avignon

O Festival de Avignon, o maior evento europeu de artes cênicas, é também co-produtor da peça, adaptada agora para um lugar mais histórico, o "Hôtel des Monnaies". A montagem feita para o festival foi complexa devido à configuração do prédio e às exigências de segurança que limitam o número de espectadores a 60 pessoas por apresentação.

Entrevista de Antônio Araújo, Teatro da Vertigem. 10/07/2014 ouvir

O público de Avignon se mostrou participativo na primeira apresentação, às vezes impressionado com uma visão tão sombria da velha Europa, mas seduzido pela intensidade do texto e da encenação.
No texto de apresentação da peça, no programa do festival, Antônio Araújo se defende de pretender, como dramaturgo brasileiro, abordar a problemática de cidades onde ele não vive, o que poderia, segundo ele, parecer arrogante. Por isso mesmo, ele diz reunir nesse espetáculo diversos “olhares” sobre a Europa: a visão dos atores europeus, a visão de Bernardo Carvalho, que morou em Paris, Londres e Berlim, e a visão do Teatro da Vertigem sobre São Paulo, onde o grupo atua e retira inspiração.
A companhia paulistana, que existe há 22 anos, desenvolve um teatro bem experimental, baseado nas intervenções urbanas e em montagens cênicas em locais não convencionais. A peça “O Livro de Jó”, em 1995, foi criada e apresentada num hospital psiquiátrico de São Paulo e “BR-3”, em 2003, foi uma obra itinerante que navegava pelo rio Tietê.
A peça “Dizer aquilo que não pensamos em línguas que não falamos” é a primeira produção contemporânea brasileira apresentada na programação oficial do Festival de Avignon desde 2005. Ela fica em cartaz até 17 de julho.

 

 
Lamentamos, mas o prazo para estabelecer a ligação em causa foi ultrapassado.