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Notre-Dame de Paris: “Pedaço da história que se apaga”

Notre-Dame de Paris: “Pedaço da história que se apaga”
 
A luta contra o fogo na Catedral de Notre-Dame de Paris. 15 de Abril de 2019. FRANCOIS GUILLOT / AFP

Quando a notícia se espalhou que Notre Dame estava a arder, milhares de pessoas concentraram-se o mais perto que puderam da catedral. Rostos desfeitos, vozes embargadas, figuras ajoelhadas entoavam cânticos e preces enquanto o céu se deixava invadir pelo fumo e a catedral era consumida pelo fogo. Mais de 800 anos de história devorados num par de horas perante a perplexidade da multidão.

Nayara Guedes é cantora lírica e médica, uma presença habitual na Catedral de Notre-Dame. Perante a notícia apocalíptica que o monumento estava a arder, a brasileira não conseguiu ficar em casa e como milhares de pessoas passou o início da noite desta segunda-feira a olhar para as chamas que devastavam um dos monumentos mais visitados do mundo. A sensação era de incredulidade e “não acreditar que isso pudesse estar a acontecer”.

Sou brasileira e a gente teve um incêndio histórico como esse há pouco tempo no Museu Nacional. A sensação que dá é que é um pedaço de história que está indo junto e que por mais que seja reconstruído, muita coisa se perdeu. É um sentimento de perda, uma tristeza de uma história perdida. É um símbolo não só de Paris, é um património mundial”, afirmou.

Quando a notícia se espalhou que Notre Dame estava em chamas, milhares de pessoas encheram as ruas, pontes e praças em torno da Île de la Cité. Rostos desfeitos, olhos aguados, figuras ajoelhadas a entoar cânticos e preces enquanto o céu se deixava invadir pelo fumo e a catedral se consumia num fogo voraz. Mais de 800 anos de história devorados num par de horas perante a perplexidade da multidão.

Joana Gomes também não conseguiu ficar em casa e precisou de se juntar a mais parisienses num momento quase de luto histórico que descreveu como “decadência absoluta”: “É um acontecimento extremamente trágico e não conseguia ficar em casa sem fazer nada, então decidi vir aqui ver e também para ver as pessoas, para não estar sozinha. É tipo o incêndio da Biblioteca de Alexandria.

Quem também não quis ficar sozinha em casa e precisou de ver para crer foi Natalia Belucci, vizinha de Notre-Dame: “Eu não conseguia acreditar que era verdade (…) É um dos lugares mais bonitos da França e eu precisava de vir para ver. É um pedaço da história que se apaga, uma parte da história que se apaga, uma parte da história que se perde.

Tristeza e incompreensão estavam também espelhadas no rosto de Catarina Cerqueira, estudante de mestrado em Paris. “Eu sempre adorei esta cidade e para mim é o maior símbolo desta cidade porque há imensa história lá dentro”, resumiu, prometendo que volta a entrar em Notre-Dame “para ajudar a reconstruir”.

Reconstruir o que demorou a construir cerca de 200 anos numa primeira fase. A Catedral de Notre-Dame é um dos edifícios mais audaciosos do século XII e um dos mais antigos monumentos franceses de estilo gótico.

Em 1831, o escritor Victor Hugo transforma-a no templo do povo e torna-a na célebre protagonista de um dos romances mais traduzidos no mundo, Notre-Dame de Paris. Um renascimento de uma lenda materializado pelo vasto e polémico restauro do arquitecto Viollet-Le-Duc que reinterpretou pouco depois a traça neogótica da catedral e construiu, por exemplo, o imenso pináculo que agora desabou sob as chamas.

Depois do drama, políticos e mecenas prometem reconstruir Notre-Dame, uma convicção repetida pelo vereador-executivo da Câmara de Paris, Hermano Sanches Ruivo. “É evidente que temos de reconstruir Notre-Dame. É evidente que vamos reconstruir Notre-Dame”, garantiu o franco-português, sublinhando que “é um monumento francês, europeu e mundial”.

As sirenes soaram mais alto que as preces. Mais de 400 bombeiros tentaram salvar a catedral e as torres da fachada principal mantiveram-se intactas. Ainda assim, as perdas são incalculáveis e o esplendor dos vitrais das rosáceas ou das pinturas seculares deu lugar à desolação de uma página de história que ardeu a 15 de Abril de 2019.

É horrível, é medonho, é incompreensível. E há raiva. Como é que é possível que o fogo tenha alastrado tao rápido e que não tenha havido alertas imediatos? Estamos totalmente arrasados”, lamentou Isabelle Eon.

É como se assistíssemos ao fim de qualquer coisa. Não sabemos se vão reconstruir alguma coisa. Mais vale estar aqui e ver o último sopro de algo histórico”, acrescentou o seu filho Emmanuel Hadad.

Muita tristeza. Estou a chorar há uma hora. Para mim é um símbolo de Paris. Representa o espirito de França de resistir perante a história”, descreveu a espanhola Mar, que está em Paris a fazer Erasmus.

Meu Deus. Que catástrofe! A maior parte do edifício é de pedra, mas também tem muita madeira que ardeu. Que Deus abençoe todos e ainda bem que não há vítimas”, afirmou Chris Landekens.

É a morte da Nossa Grande Senhora. É muito comovente e é importante estar aqui. É o símbolo de Paris por excelência, tem mais de 800 anos. O símbolo de Paris não é a Torre Eiffel, é a Notre-Dame. É um grande luto”, concluiu Elza Olivier.

 

 


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